segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Jornalismo e transparência

Por João José de Oliveira Negrão

Dois fatos bem recentes recolocam com força a ideia de que o jornalismo – enquanto fenômeno social – está passando por uma revolução sem precedentes. E o termo é este mesmo: revolução, pois as mudanças não são simplesmente cosméticas, mas institucionais e de paradigmas. Tudo isso tendo por pano de fundo as redes sociais e a internet, que, como suporte tecnológico, contribuem para a emersão de novas relações sociais, que já se vinham desenhando há algum tempo no universo da comunicação social.

O WikiLeaks, site editado por Julian Assange, pautou todos os grandes veículos mundiais ao tornar públicos mais de 250 mil documentos diplomáticos da inteligência dos EUA. Já tinha feito isto antes, quando publicizou documentos sobre a guerra do Iraque. Assange está pagando um preço caro pela audácia: diferentes países têm pressionado os servidores que suportam o WikiLeaks a negarem o acesso à rede mundial. Na semana que passou, o site chegou a ficar algumas horas fora do ar.

Outro fato interessante, na linha desta transformação, foi a força que teve o twitter @avozdacomunidade durante as operações do estado brasileiro contra o tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Operado por garotos (o mais velho com 17 anos), ele contou, pelo lado de dentro das favelas, cada detalhe da tomada da área pelas forças de segurança. Os relatos, curtos como exige o Twitter (até 140 caracteres), poderiam ser caracterizados como puro jornalismo informativo.

Esta mudança não é só no jornalismo, pois implica em alterações significativas no conceito de segredo de Estado. Um dos maiores teóricos contemporâneos da democracia, o italiano Norberto Bobbio, já escreveu que uma das “promessas não cumpridas” do regime democrático é a plena transparência dos atos dos governos e dos estados. Talvez estejamos vendo o limiar do tempo em que tal promessa não poderá mais deixar de ser cumprida.

João José de Oliveira Negrão é jornalista,
doutor em Ciências Sociais e professor no Ceunsp

(Publicado no Bom Dia Sorocaba de 06/12/2010)

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Ressentidos

Por João José de Oliveira Negrão

Passadas as eleições presidenciais, manda a boa tradição democrática que forças de oposição e de situação absorvam a decisão popular e se preparem para um próximo período. Setores ou figuras públicas que apoiaram o ex-candidato José Serra, no entanto, não têm agido assim. E pedem publicamente a intervenção das Forças Armadas no processo político, como se não houvesse na memória histórica do país o significado da última vez que elas fizeram isso.

O marechal golpista e comandante do primeiro governo da ditadura militar, Castello Branco, falava das “cassandras que iam aos bivaques bulir com militares”. É isso que faz o ator Carlos Vereza, que já interpretou no cinema um perseguido e prisioneiro de uma das ditaduras brasileiras, o escritor Graciliano Ramos, e que viu de perto a ação dos golpistas contra Jango.

Vereza criou um blog, o carlosverezablog.blogspot.com. Vejam o primeiro parágrafo de um texto, postado no dia 24/11, quando Dilma já tinha ganhado as eleições: “Cadê as Forças Armadas ? A constituição está sendo continuamente desrespeitada por Lula e seus quadrilheiros; o governo flerta acintosamente com os piores ditadores do planeta; formata-se às claras, um regime comuno-sindicalista, com ameaças nada veladas à liberdade de expressão; mensaleiros são absolvidos por juizes venais; o MST, promove a invasão de propriedades privadas, e o que vemos, estarrecidos, é o absoluto silêncio dos militares, que têm por dever a preservação das instituições democráticas!”

O velho ator clama abertamente por um golpe contra a democracia. A arenga do “regime comuno-sindicalista” é a repetição das “acusações” da direita golpista contra Jango. É triste, mas felizmente vivemos outros tempos e a pregação de Vereza só ressoa em pequenos círculos protofascistas e inconformados com o resultado das urnas.

Outro que dá mostras de ressentimento com a derrota do candidato abertamente apoiado por ele é o apresentador Marcelo Tas, que também flerta com o golpismo, de maneira aparentemente engraçadinha. No twitter, ele pediu que, depois do Rio, o Bope, o Exército e a Polícia “limpassem o Congresso Nacional”. Em 64, também iam fazer isso; tivemos 21 anos de ditadura sanguinária.

João José de Oliveira Negrão é jornalista,
doutor em Ciências Sociais e professor no Ceunsp

(Publicado no Bom Dia Sorocaba de 29-11-2010)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Enfrentar a intolerância

Por João José de Oliveira Negrão

A cena é assustadora. Dois pequenos grupos de jovens caminham em sentido contrário na Avenida Paulista, centro financeiro da maior cidade da América do Sul e uma das maiores do mundo. De repente, do nada, vê-se um dos garotos agredir a outro por duas vezes com uma lâmpada de luz fria. Imediatamente me lembro das recomendações de minha mãe, que alertava para o cuidado com tais lâmpadas, já que, em caso de acidentes com cortes, “a cicatriz ficava muito feia, pois não fechava direito”. Será que ainda é assim?

Ainda naquela noite, o grupo composto por jovens de classe média, sem problemas financeiros e estudantes de escolas privadas – embora já colecionassem expulsões em algumas delas – teria agredido outras três pessoas. O motivo das agressões foi a suposta homossexualidade das vítimas. Na mesma semana, um sargento do Exército brasileiro, no Rio de Janeiro, baleou na barriga um outro jovem, pelo mesmo motivo.

São sinais preocupantes de intolerância, que precisa ser combatida sem tréguas. Em artigos das semanas passada e retrasada, tratei aqui do preconceito contra nordestinos, negros e indígenas que aflorou com o resultado das eleições presidenciais. Embora a onda tenha se originado nas redes sociais, não ficou restrita a elas: artigos publicados na Folha de S. Paulo, pelo jornalista Leandro Narlochi e pela professora de Direito da USP, Janaína Paschoal, botaram mais lenha na fogueira e deram ao preconceito explícito um certo “verniz intelectual”.

Instituições sociais importantes e comprometidas com a democracia, como os sindicatos, universidades, OAB, entre outras, precisam ajudar a enfrentar o ovo da serpente. Sugiro que, para o ano que vem, organizemos debates, palestras e seminários com o objetivo específico de discutir e combater todas as formas de preconceitos. Desde já me coloco à disposição. Se ficarmos quietos, fazendo de conta que é um problema menor, localizado, a intolerância se alastrará. Depois, talvez seja tarde.

João José de Oliveira Negrão é jornalista,
doutor em Ciências Sociais e professor no Ceunsp

(Publicado no Bom Dia Sorocaba de 22-11-2010)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Vítimas, não culpados

Por João José de Oliveira Negrão


O preconceito contra nordestinos, negros e indígenas, “culpabilizados” pela vitória de Dilma Rousseff na eleição presidencial – e que levou a OAB-PE a representar contra a estudante de Direito Mayara Petruso, que teria dado início à onda xenófoba --, continua repercutindo.

 

Na semana que passou, dois novos artigos publicados pela Folha de S. Paulo puseram lenha na fogueira. O primeiro, do jornalista Leandro Narloch – "sim, eu tenho preconceito" – no qual o autor desfila uma série de, digamos, argumentos, em síntese, culpa as vítimas pela pobreza e pela falta de estudos. Ao lê-lo, imediatamente me vi remetido à releitura de Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. O livro é de Hannah Arendt, de 1963. Tem edição recente e mostra a necessidade de lutar por valores humanistas em tempos sombrios. E que fique claro: NÃO é isto que faz Narloch, ao se vangloriar da obtusidade.


O segundo saiu da lavra da professora de Direito da USP, Janaína Paschoal. Em defesa da estudante Mayara, Janaína utiliza-se de um surrado recurso retórico: começa lembrando que é “neta de pernambucanos”. Na sequência, conforme escreveu a também professora de Sociologia da USP, Heloísa Fernandes, parte para a lógica da inversão: “por ela, não apenas não somos racistas como tudo que acontece é culpa da vítima. Se não fossem os negros, nordestinos, pobres, prostitutas, homossexuais, se Lula não fosse presidente, a estudante não teria cometido o despautério de pedir o assassinato de ninguém e tampouco teria sido demonizada”.

Narloch e Janaína, intelectuais, com formação de primeira linha, demonstram que a educação formal não é garantia absoluta contra o preconceito. O ovo da serpente, tirado do ninho pela campanha de José Serra ao abrir espaços para os fundamentalismos, começa a estalar. Só a retomada da hegemonia de valores democráticos, republicanos e progressistas – o que não significa concordância ou oposição ao governo eleito – poderá livrar o país de um retrocesso que insiste em retornar.

João José de Oliveira Negrão e jornalista,
doutor em Ciências Sociais e professor no Ceunsp

(Publicado no Bom Dia Sorocaba de 15/11/2010)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Preconceito e ódio

Por João José de Oliveira Negrão

O preconceito descarado, xenófobo mesmo, saiu das profundezas e, sem a vergonha com que se manifestava à boca pequena, ganhou o espaço público, em especial pelas redes sociais da internet. Nordestinos, negros, indígenas foram acusados de “culpa” pela eleição da presidenta Dilma Rousseff. E pouco adiantaram as confirmações matemáticas de que mesmo que se só se apurassem votos no Sul e Sudeste, a petista seria eleita com 29,7 milhões de votos contra os 29,4 milhões dados a Serra. O preconceito é uma maneira de se desobrigar a pensar: fornece uma resposta pronta, padrão, antes que o problema seja formulado.

A estudante de Direito Mayara Petruso parece ter dado início à onda xenofóbica. No dia 1º de novembro, postou, no Twitter, que “nordestisto (sic) não é gente, faça um favor a SP, mate um nordestino afogado”. Foi a senha para uma enxurrada de mensagens de mesmo teor. A OAB-PE moveu uma representação contra Mayara, por racismo e incitação à prática de crime. Em São Paulo, surgiu um autodenominado Movimento São Paulo para os Paulistas.

É inegável que tal acirramento é um dos resultados previsíveis dos rumos que tomou a campanha de José Serra. Ao trazer para a frente do palco temas comportamentais, como aborto e fundamentalismo religioso – fora, inclusive, do âmbito decisório de um Presidente da República –, Serra e seu marketing optaram por uma estratégia semelhante à do movimento Tea Party, a ultradireita norte-americana que tem dado dores de cabeça ao presidente Obama. Além disso, no debate na Rede TV!, Serra afirmou que Dilma e o PT não gostam de São Paulo.

A estratégia do ódio, como sabemos, pode até ter conseguido levar a eleição presidencial para o segundo turno, mas não foi suficiente para a vitória de Serra. No entanto, pode ter deixado marcas profundas, fissuras sociais que precisam ser fechadas.

João José de Oliveira Negrão é jornalista,
doutor em Ciências Sociais e professor do Ceunsp

(Publicado no Bom Dia Sorocaba de 08-11-10)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Conselho não é censura

Por João José de Oliveira Negrão

Passadas as eleições e conhecidos os resultados das urnas, uma discussão, aparentemente específica do campo da Comunicação -- mas que diz respeito ao conjunto da sociedade e ao avanço da democracia participativa –, precisa voltar à cena. Se possível, num nível de maior racionalidade que aquele permitido pelas paixões despertadas pelo processo eleitoral. Estou me referindo à criação dos conselhos estaduais e nacional de Comunicação, resultantes da I Conferência Nacional de Comunicação.

O assunto voltou à pauta com a criação, pela Assembleia Legislativa cearense, do Conselho Estadual de Comunicação daquele estado. Intenção semelhante já manifestaram Alagoas, Piauí e Bahia – o que desmonta argumentos exclusivamente partidários dos adversários dos conselhos: o Ceará é governado pelo PSB, Piauí e Bahia pelo PT e Alagoas pelo PSDB.

É preciso estabelecer, logo de início, que os conselhos não são instrumentos de censura prévia à imprensa, nem querem controlar a circulação de informações e de opiniões. Como demonstraram Bia Barbosa, Jonas Valente, Pedro Caribé e João Brant, membros do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, “os Estados não definem novas regras para a radiodifusão, o que seria prerrogativa da União, mas apoiam a aplicação de princípios constitucionais e leis já existentes, muitas vezes ignorados por concessionárias de rádio e TV. Os conselhos tratam das políticas estaduais, como o desenvolvimento da precária radiodifusão pública e comunitária local, o acesso da população à banda larga, e de critérios democráticos de distribuição das verbas publicitárias governamentais, feitas, em geral, de forma pouco transparente”.

Os grandes meios de comunicação, neste tema específico mais que em outros, não têm aberto espaço ao contraditório. Não só os editoriais, mas também as reportagens “informativas” têm, via de regra, só ouvido fontes contrárias à criação dos conselhos. É sintomático.

João José de Oliveira Negrão é jornalista,
doutor em Ciências Sociais e professor no Ceunsp

(Publicado no Bom Dia Sorocaba de 01/11/10)

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

21 anos domingo

Por João José de Oliveira Negrão

Domingo a democracia brasileira faz aniversário. Completaremos 21 anos de processo democrático ininterrupto, fato raro na nossa história. Em 1989, depois de uma longa transição – que envolveu, como ponto final, o mandato de José Sarney, vice-presidente escolhido ao lado de Tancredo Neves por um Colégio Eleitoral – efetivamente chegava ao fim o ciclo da ditadura militar, instalado com o Golpe de 1964.

As eleições de 89 foram disputadas por 22 candidatos a Presidência. Presentes as velhas forças de apoio à ditadura, como Aureliano Chaves (PFL) e Paulo Maluf (PDS); a oposição tradicional, como Ulysses Guimarães (PMDB), Leonel Brizola (PDT) e Roberto Freire (PCB); uma nova direita, com Fernando Collor (PRN), Ronaldo Caiado (PSD) e Guilherme Afifi Domingos (PL). Apareciam também as candidaturas de Lula (PT), Mário Covas (PSDB) e Fernando Gabeira (PV). E também os partidos nanicos, com figuras folclóricas como Enéas Carneiro (PRONA), Marronzinho (PSP) e Armando Correa (PMB)

Para o segundo turno, foram Lula e Collor. De um lado (Lula) ficaram todos aqueles que tinham enfrentado a ditadura: Brizola, Covas, Ulysses, Freire, Gabeira. De outro (Collor), as forças de apoio aos militares e a nova direita: Maluf, Aureliano, Caiado, Afif.

Já nas eleições seguintes, começava uma disputa entre dois partidos novos, filhos da redemocratização. PT e PSDB polarizaram as eleições de 94 e 98 – vencidas pelos tucanos, com FHC –, 2002 e 2006 – vencidas pelos petistas, com Lula. O segundo turno das eleições de 2010 mantém a disputa: PT e PSDB novamente se enfrentam. E não é coincidência, pois são os únicos partidos que têm um projeto político e de Nação para o Brasil.

São também os únicos efetivamente organizados em todo o país e que, apesar de suas figuras de proa, são capazes de existir sem depender de uma liderança carismática. Apesar de pontos de contato em sua história, eles representam projetos distintos. Cabe ao eleitor escolher qual deles quer para o Brasil.

João José de Oliveira Negrão é jornalista,
doutor em Ciências Sociais e professor no Ceunsp
(Publicado no Bom Dia Sorocaba de 25/10/10, com o título alterado pela redação para "Democracia conquistada"

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Liberdade para os iguais

Por João José de Oliveira Negrão

“Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos”.

Assim terminava o artigo, favorável ao governo, que custou a demissão da psicanalista Maria Rita Kehl do conjunto de articulistas do jornal O Estado de S. Paulo. O tradicional e conservador diário paulistano, de maneira transparente, apoia a candidatura Serra. O avanço da posição explícita, no entanto, sucumbiu frente ao ataque à pluralidade. Assim, a liberdade de expressão é só para quem pensa igual Na mesma seara, a Folha de S. Paulo, apelando para a Justiça, conseguiu tirar do ar um blog satírico chamado Falha de S. Paulo, alegando “uso indevido da marca”.

São estes mesmos jornais, linhas de frente de instituições conservadoras com a ANJ (Associação Nacional de Jornais), a SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa) e o Instituto Millenium, que seguidamente alertam para supostos “ataques” à liberdade de imprensa e de expressão promovidos pelos governos de centro-esquerda latinoamericanos.

No entanto, até o momento em que este artigo é finalizado (domingo pela manhã), nenhuma destas organizações se manifestou sobre a demissão de Maria Rita ou sobre a proibição ao blog. Também não o fizeram os convertidos neoconservadores Marcelo Tas nem o comediante Marcelo Madureira. E não se sabe se os humoristas da Globo estão organizando alguma manifestação para as ruas do Leblon, em nome da liberdade.

(Publicado no Bom Dia Sorocaba de 11/10/10)

Aposta no retrocesso

Por João José de Oliveira Negrão

No final de setembro de 2008, aqui neste espaço, escrevi, a respeito do PSDB, que “aquele sopro modernizador do início logo transmudou-se, ao chegar ao poder com FHC, na repetição dos processos de modernização conservadora tão comuns à nossa história. As veleidades social-democratas, a ideia do Estado de Bem Estar Social e as tinturas keynesianas de política econômica foram abandonadas, trocadas pela realpolitik neoliberal então em voga. Em verdade, os princípios social-democratas estão hoje em outras mãos e os tucanos são, tão somente, conservadores tradicionais. Assim, o PSDB envelheceu antes de amadurecer. Para quem tinha, segundo Sérgio Motta, um projeto de 20 anos de poder, a senilidade chegou antes”.
 Os rumos que Serra tomou aceleraram ainda mais este processo. De conservadores tradicionais, os tucanos foram para a direita mais anacrônica. O fundamentalismo religioso, o moralismo e o neoudenismo – em tudo lembrando a oposição que o Tea Party faz a Obama – colonizaram de vez a campanha tucana. Serra, Aloysio Nunes, José Anibal, Alberto Goldman, entre outros, com origem política em grupos de enfrentamento à ditadura, como a Ação Popular (AP), ALN, de Marighela, e o velho Partidão (PCB), hoje parecem os graves senhores da Marcha com Deus pela Família, predecessora do golpe de 64. A própria TFP distribui panfletos em encontro nacional do PSDB, enquanto uma de suas principais lideranças, o governador eleito Geraldo Alckmin, flerta com o Opus Dei, outro grupo da ultradireita católica.

O projeto político tucano se deslocou para a polícia comportamental, é regressivo e os compromissos assumidos com os grupos fundamentalistas – que não agem na política movidos tão somente por interesses ideológicos, mas buscam, por exemplo, concessões de TV – podem cobrar um alto preço daqueles que, há cerca de duas décadas, nasceram dos ventos modernizantes que sopraram no Brasil pós ditadura. É pena.

João José de Oliveira Negrão é jornalista,
doutor em Ciências Sociais e professor no Ceunsp

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Mudança real

Por João José de Oliveira Negrão

O Brasil vem, efetivamente, mudando no rumo de um país mais desenvolvido e com menor desigualdade social. Prova disso não vem de nenhum instituto ligado ao governo federal, mas do Centro de Políticas Sociais, da Fundação Getúlio Vargas, coordenado pelo economista Marcelo Neri. O livro A Nova Classe Média: o lado brilhante dos pobres, bem como uma série de slides com gráficos e tabelas da pesquisa estão disponíveis a todos os interessados em www.fgv.br/cps/classe_media/.

Os dados mostram uma série de indicadores que permitem afirmar tal melhora. A renda média do brasileiro – atualizada para valores de 2009 --, saiu de R$ 385,5 em 1992 e chegou a R$ 630,25 em 2009. Outra número importante é o Índice de Gini, usado internacionalmente como indicador de igualdade social. Quanto mais perto de zero, mais igualitário é o país na distribuição da renda. Pois bem, o Brasil estava em 0,6091 em 1990 e foi para 0,5448 em 2009.

Importante também é a evolução da distribuição de classes de renda. As classes D/E, os mais pobres, cuja renda domiciliar é de até R$ 1126,00, eram 62,1% da população brasileira em 1992. Em 2009, elas cairam para 38,94%. Já a classe C, de renda domiciliar acima dos R$ 1126,00 até R$ 4854,00, que era 32,5% dos brasileiros em 92, em 2009 chegou a 50,5% da população. A classe média, portanto, já é a maioria da nossa população.

São dados reais, como estes, que explicam a popularidade do governo Lula e os índices de intenção de voto da candidata da situação, Dilma Rousseff. O voto tem alto grau de racionalidade, e quem continuar apostando que eleição é apenas um ato emocional vai continuar quebrando a cara.

João José de Oliveira Negrão e jornalista,
doutor em Ciências Sociais e professor no Ceunsp

(Publicado no Bom Dia Sorocaba de 13/09/2010)