Por João José de Oliveira Negrão
Dois fatos bem recentes recolocam com força a ideia de que o jornalismo – enquanto fenômeno social – está passando por uma revolução sem precedentes. E o termo é este mesmo: revolução, pois as mudanças não são simplesmente cosméticas, mas institucionais e de paradigmas. Tudo isso tendo por pano de fundo as redes sociais e a internet, que, como suporte tecnológico, contribuem para a emersão de novas relações sociais, que já se vinham desenhando há algum tempo no universo da comunicação social.
O WikiLeaks, site editado por Julian Assange, pautou todos os grandes veículos mundiais ao tornar públicos mais de 250 mil documentos diplomáticos da inteligência dos EUA. Já tinha feito isto antes, quando publicizou documentos sobre a guerra do Iraque. Assange está pagando um preço caro pela audácia: diferentes países têm pressionado os servidores que suportam o WikiLeaks a negarem o acesso à rede mundial. Na semana que passou, o site chegou a ficar algumas horas fora do ar.
Outro fato interessante, na linha desta transformação, foi a força que teve o twitter @avozdacomunidade durante as operações do estado brasileiro contra o tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Operado por garotos (o mais velho com 17 anos), ele contou, pelo lado de dentro das favelas, cada detalhe da tomada da área pelas forças de segurança. Os relatos, curtos como exige o Twitter (até 140 caracteres), poderiam ser caracterizados como puro jornalismo informativo.
Esta mudança não é só no jornalismo, pois implica em alterações significativas no conceito de segredo de Estado. Um dos maiores teóricos contemporâneos da democracia, o italiano Norberto Bobbio, já escreveu que uma das “promessas não cumpridas” do regime democrático é a plena transparência dos atos dos governos e dos estados. Talvez estejamos vendo o limiar do tempo em que tal promessa não poderá mais deixar de ser cumprida.
João José de Oliveira Negrão é jornalista,
doutor em Ciências Sociais e professor no Ceunsp
(Publicado no Bom Dia Sorocaba de 06/12/2010)