terça-feira, 7 de abril de 2009

Jornalista desmente Folha

Por Antônio Roberto Espinosa

A Folha de São Paulo preparou uma “armadilha” para a Dilma usando uma entrevista que concedi a uma das suas repórteres da sucursal de Brasília. Encaminhei a carta abaixo à redação. E peço que todos os amigos que a façam chegar a quem acharem necessário: redações de jornais, revistas, emissoras de TV e pessoas que talvez possam ser afetadas ou se sintam indignadas pela má fé dos editores do jornal. Como sabem, sou favorável à transparência, por achar que a verdade é sempre o melhor caminho e, no fundo, revolucionária.

À coluna Painel do leitor

Seguem cópias para o Ombudsman e para a redação.
Vou enviar cópias também a toda a imprensa nacional.
Peço que esta carta seja publicada na próxima edição. Segue abaixo:

Prezados senhores,
Chocado com a matéria publicada na edição de hoje (domingo, 5), páginas A8 a A10 deste jornal, a partir da chamada de capa “Grupo de Dilma planejou seqüestro de Delfim Neto”, e da repercussão da mesma nos blogs de vários de seus articulistas e no jornal Agora, do mesmo grupo, solicito a publicação desta carta na íntegra, sem edições ou cortes, na edição de amanhã, segunda-feira, 6 de abril, no “Painel do Leitor” (ou em espaço equivalente e com chamada de capa), para o restabelecimento da verdade, e sem prejuízo de outras medidas que vier a tomar.

Esclareço preliminarmente que:1) Não conheço pessoalmente a repórter Fernanda Odilla, pois fui entrevistado por ela somente por telefone. A propósito, estranho que um jornal do porte da Folha publique matérias dessa relevância com base somente em “investigações” telefônicas;2) Nossa primeira conversa durou cerca de 3 horas e espero que tenha sido gravada. Desafio o jornal a publicar a entrevista na íntegra, para que o leitor a compare com o conteúdo da matéria editada. Esclareço que concedi a entrevista porque defendo a transparência e a clareza histórica, inclusive com a abertura dos arquivos da ditadura. Já concedi dezenas de entrevistas semelhantes a historiadores, jornalistas, estudantes e simples curiosos, e estou sempre disponível a todos os interessados;3) Quem informou à Folha que o Superior Tribunal Militar (STM) guarda um precioso arquivo dos tempos da ditadura fui eu. A repórter, porém, não conseguiu acessar o arquivo, recorrendo novamente a mim, para que lhe fornecesse autorização pessoal por escrito, para investigar fatos relativos à minha participação na luta armada, não da ministra Dilma Rousseff.

Posteriormente, por e-mail, fui novamente procurado pela repórter, que me enviou o croquis do trajeto para o sítio Gramadão, em Jundiaí, supostamente apreendido no aparelho em que eu residia, no bairro do Lins de Vasconcelos, Rio de Janeiro. Ela indagou se eu reconhecia o desenho como parte do levantamento para o seqüestro do então ministro da Fazenda Delfim Neto. Na oportunidade disse-lhe que era a primeira vez que via o croquis e, como jornalista que também sou, lhe sugeri que mostrasse o desenho ao próprio Delfim (co-signatário do Ato Institucional número 5, principal quadro civil do governo ditatorial e cúmplice das ilegalidades, assassinatos e torturas).

Afirmo publicamente que os editores da Folha transformaram um não-fato de 40 anos atrás (o seqüestro que não houve de Delfim) num factóide do presente (iniciando uma forma sórdida de anticampanha contra a Ministra). A direção do jornal (ou a sua repórter, pouco importa) tomou como provas conclusivas somente o suposto croquis e a distorção grosseria de uma longa entrevista que concedi sobre a história da VAR-Palmares. Ou seja, praticou o pior tipo de jornalismo sensacionalista, algo que envergonha a profissão que também exerço há mais de 35 anos, entre os quais por dois meses na Última Hora, sob a direção de Samuel Wayner (demitido que fui pela intolerância do falecido Octávio Frias a pessoas com um passado político de lutas democráticas).

A respeito da natureza tendenciosa da edição da referida matéria faço questão de esclarecer:1) A VAR-Palmares não era o “grupo da Dilma”, mas uma organização política de resistência à infame ditadura que se alastrava sobre nosso país, que só era branda para os que se beneficiavam dela. Em virtude de sua defesa da democracia, da igualdade social e do socialismo, teve dezenas de seus militantes covardemente assassinados nos porões do regime, como Chael Charles Shreier, Yara Iavelberg, Carlos Roberto Zanirato, João Domingues da Silva, Fernando Ruivo e Carlos Alberto Soares de Freitas. O mais importante, hoje, não é saber se a estratégia e as táticas da organização estavam corretas ou não, mas que ela integrava a ampla resistência contra um regime ilegítimo, instaurado pela força bruta de um golpe militar;2) Dilma Rousseff era militante da VAR-Palmares, sim, como é de conhecimento público, mas sempre teve uma militância somente política, ou seja, jamais participou de ações ou do planejamento de ações militares. O responsável nacional pelo setor militar da organização naquele período era eu, Antonio Roberto Espinosa. E assumo a responsabilidade moral e política por nossas iniciativas, denunciando como sórdidas as insinuações contra Dilma;3) Dilma sequer teria como conhecer a idéia da ação, a menos que fosse informada por mim, o que, se ocorreu, foi para o conjunto do Comando Nacional e em termos rápidos e vagos. Isto porque a VAR-Palmares era uma organização clandestina e se preocupava com a segurança de seus quadros e planos, sem contar que “informação política” é algo completamente distinto de “informação factual”. Jamais eu diria a qualquer pessoa, mesmo do comando nacional, algo tão ingênuo, inútil e contraproducente como “vamos seqüestrar o Delfim, você concorda?”.

O que disse à repórter é que informei politicamente ao nacional, que ficava no Rio de Janeiro, que o Regional de São Paulo estava fazendo um levantamento de um quadro importante do governo, talvez para seqüestro e resgate de companheiros então em precárias condições de saúde e em risco de morte pelas torturados sofridas. A esse propósito, convém lembrar que o próprio companheiro Carlos Marighela, comandante nacional da ALN, não ficou sabendo do seqüestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick. Por que, então, a Dilma deveria ser informada da ação contra o Delfim? É perfeitamente compreensível que ela não tivesse essa informação e totalmente crível que o próprio Carlos Araújo, seu então companheiro, diga hoje não se lembrar de nada;4) A Folha, que errou a grafia de meu nome e uma de minhas ocupações atuais (não sou “doutorando em Relações Internacionais”, mas em Ciência Política), também informou na capa que havia um plano detalhado e que “a ação chegou a ter data e local definidos”. Se foi assim, qual era o local definido, o dia e a hora? Desafio que os editores mostrem a gravação em que eu teria informado isso à repórter;5) Uma coisa elementar para quem viveu a época: qualquer plano de ação envolvia aspectos técnicos (ou seja, mais de caráter militar) e políticos. O levantamento (que é efetivamente o que estava sendo feito, não nego) seria apenas o começo do começo. Essa parte poderia ficar pronta em mais duas ou três semanas.

Reiterando: o Comando Regional de São Paulo ainda não sabia com certeza sequer a freqüência e regularidade das visitas de Delfim a seu amigo no sítio. Depois disso seria preciso fazer o plano militar, ou seja, como a ação poderia ocorrer tecnicamente: planejamento logístico, armas, locais de esconderijo etc. Somente após o plano militar seria elaborado o plano político, a parte mais complicada e delicada de uma operação dessa natureza, que envolveria a estratégia de negociações, a definição das exigências para troca, a lista de companheiros a serem libertados, o manifesto ou declaração pública à nação etc. O comando nacional só participaria do planejamento , portanto, mais tarde, na sua fase política. Até pode ser que, no momento oportuno, viesse a delegar essa função a seus quadros mais experientes, possivelmente eu, o Carlos Araújo ou o Carlos Alberto, dificilmente a Dilma ou Mariano José da Silva, o Loiola, que haviam acabado de ser eleitos para a direção; no caso dela, sequer tinha vivência militar;6) Chocou-me, portanto, a seleção arbitrária e edição de má-fé da entrevista, pois, em alguns dias e sem recursos sequer para uma entrevista pessoal – apelando para telefonemas e e-mails, e dependendo das orientações de um jornalista mais experiente, no caso o próprio entrevistado -, a repórter chegou a conclusões mais peremptórias do que a própria polícia da ditadura, amparada em torturas e num absurdo poder discricionário. Prova disso é que nenhum de nós foi incriminado por isso na época pelos oficiais militares e delegados dos famigerados Doi-Codi e Deops e eu não fui denunciado por qualquer um dos três promotores militares das auditorias onde respondi a processos, a Primeira e a Segunda auditorias de Guerra, de São Paulo, e a Segunda Auditoria da Marinha, do Rio de Janeiro.

Osasco, 5 de abril de 2009

Antonio Roberto Espinosa
Jornalista, professor de Política Internacional, doutorando em Ciência Política pela USP, autor de Abraços que sufocam – E outros ensaios sobre a liberdade e editor da Enciclopédia Contemporânea da América Latina e do Caribe.

terça-feira, 31 de março de 2009

Diploma de Jornalismo

Por João José de Oliveira Negrão

Estão na pauta do STF, para serem votadas quarta-feira (01/04), duas questões que dizem respeito aos jornalistas e a toda sociedade: a Lei de Imprensa e a exigência do diploma superior específico para o exercício da profissão de jornalista no Brasil.
A lei que regulamenta a profissão – e exige a formação universitária – já tem 40 anos. Mas em 2001 uma juíza substituta, chamada Carla Rister, concedeu uma liminar que eliminou a necessidade do diploma (de qualquer diploma, destaque-se). Em 2005, o Tribunal Regional Federal da 3a. Região derrubou a liminar e confirmou a regulamentação profissional, mantendo a exigência da formação superior. Como houve recurso ao STF, a decisão liminar continuou valendo.

Criou-se então uma figura estranha: o jornalista precário, aquele que exerce a profissão sem estar devidamente qualificado para tal. Este embrulho jurídico pode ter fim na quarta-feira.
Ao contrário das aparências, este não é um assunto exclusivo da categoria dos jornalistas. Está em risco o direito da sociedade de receber informação qualificada, apurada por profissionais capacitados, com formação teórica, técnica e ética.

Por isso, em defesa do diploma, o Sindicato dos Jornalistas de SP – Regional Sorocaba; a Associação Sorocabana de Imprensa; a Aliança Internacional de Jornalistas pela Paz e o curso de Jornalismo da Universidade de Sorocaba, além de profissionais e estudantes de Jornalismo da região vão realizar uma manifestação na Câmara Municipal de Sorocaba, no dia 31 de março, terça-feira, às 9h. Jornalistas, estudantes e demais interessados estão convidados.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Guerra reveladora

Por João José de Oliveira Negrão

A Folha de S. Paulo e a rede Record estão em plena guerra. As acusações de uma contra a outra pululam nos editoriais e telejornais. Cá entre nós, penso que, neste caso, ambas dizem a verdade. Mas o que merece destaque é o fato de se romper um pacto de silêncio que envolve as instituições jornalísticas no Brasil: um não fala, não cita, não critica e muita vezes não diz nem o nome do outro.

Isso, que acontece na grande imprensa nacional e parece um acordo de cavalheiros (ou seria omertá) da dezena de famílias do baronato midiático, se repete na imprensa local. Apenas alguns outsiders, como a CartaCapital, a Caros Amigos e alguns sites e blogs fazem crítica do jornalismo.
E é um contrassenso, pois o jornalismo tem por hábito e dever referir-se a tudo que diga respeito ao espaço público. Assim, a política deve ser criticada, a economia deve ser criticada, as universidades e as escolas públicas e privadas, as empresas e seus produtos e serviços. Mas também o jornalismo, componente indispensável da democracia contemporânea.

Nossos jornais falam de tudo e de todos, criticam e elogiam a tudo e a todos, menos a eles mesmos. Aqui mesmo em Sorocaba, com raríssimas exceções vemos um jornal ou emissora citar o nome do concorrente ou denunciar seus erros factuais ou de conduta profissional. É a política editorial, dizem. Os leitores e a democracia só terão a ganhar se os jornais romperem este pacto. Nós, consumidores de notícias, devemos reivindicar isso. A transparência – tão cobrada pelos jornais das instituições da sociedade contemporânea – tem de ser autoaplicada pelos veículos jornalísticos.

(Publicada originalmente no Bom Dia Sorocaba, de 23/03/2009)

quinta-feira, 5 de março de 2009

Ato contra a 'ditabranda' neste sábado

Por Altamiro Borges *

Neste sábado, 7 de março, às 10 horas, ocorrerá o ato de repúdio à Folha de S.Paulo, que num editorial infame qualificou a ditadura militar brasileira de "ditabranda". Os presentes também prestarão solidariedade à professora Maria Victória Benevides e ao jurista Fábio Konder Comparato, agredidos pelo jornal, que rotulou as criticas de ambos ao editorial como "cínicas e mentirosas". O protesto ocorrerá em frente ao prédio da Folha, na Alameda Barão de Limeira, 425, no centro da capital paulista, e reunirá familiares de presos, desaparecidos e torturados pelo regime militar, intelectuais e ativistas dos movimentos sociais e das organizações de direitos humanos. Todos os que lutam contra a ditadura midiática têm um compromisso militante no sábado. Como afirma Eduardo Guimarães, editor do blog Cidadania, presidente do Movimento dos Sem Mídia e organizador do ato, não dá para se omitir diante da "perniciosa e ameaçadora revisão histórica perpetrada pelo editorial da Folha, num texto que relativizou a gravidade dos crimes cometidos pelo Estado entre os anos de 1964-1985, período no qual a nação sofreu a usurpação de um golpe militar ilegal e inconstitucional". Para fustigar os inertes, ele cita um pensamento do líder negro Martin Luther King: "O que preocupa não são os gritos dos maus, mas o silêncio dos bons".

Pesadelos da Famíglia Frias

Convocado pela internet, sem qualquer logística, o ato contra a Folha pode surpreender e deixar a famíglia Frias preocupada com os disparates que difunde impunemente. Democratas de várias localidades já confirmaram presença. Manifesto de repúdio ao editorial, deflagrado por docentes da Unicamp, já reúne mais de 7 mil assinaturas - a mais recente adesão foi de Oscar Niemeyer, um símbolo da luta democrática. Como afirma o manifesto, "o estelionato semântico manifesto pelo neologismo ‘ditabranda’ é, a rigor, uma fraudulenta revisão histórica forjada pela minoria que se beneficiou da suspensão das liberdades e direitos democráticos no pós-64".O editorial da Folha, publicado nas vésperas do Carnaval, tirou a fantasia deste jornal que ainda engana alguns ingênuos com o seu falso ecletismo. Revelou que o Grupo Folhas, de propriedade da Famíglia Frias, sempre teve fortes tendências fascistizantes e golpistas. Ele clamou pelo golpe militar de 64, apoiou a linha dura dos generais golpistas e cedeu a sua estrutura para a tortura dos presos políticos. De forma habilidosa, a Folha apoiou a campanha pelas Diretas-Já, como relata o jornalista Ricardo Kotscho no livro "Do golpe ao Planalto". Mas nunca abandonou o seu instinto golpista, como ficou patente nas suas colunas favoráveis ao impeachment do presidente Lula.

Boicote total à Folha

Diante desta trajetória, a jornalista Elaine Tavares foi certeira: "Sempre me causou espécie ver a intelectualidade de esquerda render-se ao feitiço da Folha, que insistia em dizer que era ‘o mais democrático’ ou que ‘abria espaço para a diferença’. Ora, o jornal dos Frias pode ser comparado à velha historinha do lobo que estudou na França e voltou querendo ser amigo das ovelhas. Tanto insistiu que elas foram visitá-lo. Então, já dentro da casa do lobo, ele as comeu. Uma delas, moribunda, lamentou: ‘Mas você disse que tinha mudado’. E ele, sincero: ‘Eu mudei, mas não há como mudar os hábitos alimentares’. E assim é com a Folha... São os seus hábitos alimentares".O editorial da Folha expressa a radicalização da direita nativa, que perde nacos do poder político e teme seu futuro - inclusive na sucessão presidencial. Diante desta exasperação, é preciso adotar medidas mais efetivas. A corajosa Maria Victória Benevides, difamada pelos estrumes da direita, já anunciou que cancelará a sua assinatura da Folha, e Elaine Tavares arrematou: "A Folha é lixo e como tal deve ser descartada. Penso eu que se cada ser humano neste país que ficou indignado com a Folha deixar de comprá-la, ela não se sustenta. Se serve à elite, que seja alimentada por ela somente". Eu já estou cancelando a minha assinatura! Boicote total à Folha de S.Paulo.

* Jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB - Partido Comunista do Brasil

segunda-feira, 2 de março de 2009

A Folha e a ditadura

Por João José de Oliveira Negrão

A Folha de S. Paulo parece querer voltar ao início dos anos 80 quando, dirigida pelo então jovem príncipe herdeiro Octávio Frias Filho, criava polêmicas a torto e à direita como estratégia bem pensada para tentar se configurar como "o" jornal moderno de São Paulo. Em editorial no último dia 17/2, o jornalão refere-se ao regime militar brasileiro como "ditabranda", comparando-o a outros que teriam sido mais cruéis, teriam matado, prendido e exilado mais opositores. Como se vidas ceifadas pudessem ser contabilizadas tão simplesmente.

Muitas cartas críticas e algumas defendendo a ditadura foram publicadas. Mas duas receberam respostas grosseiras e descabidas da direção do jornal: as da professora Maria Victoria Benevides e do jurista Fábio Konder Comparato. Para a Folha, em ambos, a "indignação é cínica e mentirosa", uma vez que eles nunca "expressaram repúdio a ditaduras de esquerda".

O revisionismo histórico que a Folha está tentando praticar – aliviar a inumanidade da ditadura brasileira – parece ter a intenção de amenizar seu próprio papel na sustentação daquele regime. Um dos jornais da casa, a então Folha da Tarde, tinha uma redação composta por vários delegados de polícia, muitos ligados aos aparelhos de repressão. Nas "notícias" deste jornal, presos políticos ainda vivos eram dados como mortos "ao tentar fugir". Era uma espécie de senha: a hora da morte tinha chegado. Várias fontes contam também que a Folha emprestava seus veículos de distribuição de jornal – que, por isso, circulavam sem levantar suspeitas – para o aparato repressivo e que a empresa Folha da Manhã colaborava com a Oban (Operação Bandeirantes).

Ao contrário desta, as histórias de vida tanto de Comparato quanto de Maria Victoria são infinitamente mais dignas.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Cida Muniz é nomeada secretária de comunicação da Câmara

Por Felipe Shikama

Apesar da enorme polêmica gerada nos últimos dias diante da criação de 23 cargos comissionados na Câmara de Sorocaba, a nomeação da jornalista Cida Muniz para ocupar o posto de secretária de comunicação institucional da casa merece destaque no que interessa prioritariamente a este blog: o jornalismo.

Repórter setorista da Câmara para a rádio Jovem Pan e jornal Ipanema durante sete anos, Cida Muniz demonstrou ao longo desses anos ser uma das profissionais mais qualificadas na cidade, sobretudo para este tipo de cobertura.

Experiente, justa e humilde, a “aquisição” de Cida pela Câmera não é surpresa, nem para seus colegas de profissão, nem para seus leitores e ouvintes. A nomeação de Cida Muniz para chefiar a comunicação da Câmara representa o reconhecimento público desta profissional que, é verdade, encontrará novos e grandes desafios pela frente.

Assumindo “o outro lado do balcão”, Cida terá basicamente duas tarefas desafiadoras. Por um lado, estabelecer um diálogo mais próximo, institucional, entre Câmara e imprensa e, por outro, operar para aproximar os munícipes do Poder Legislativo.

Cida, que certamente conhece os desafios que vêm pela frente, já se antecipou defendendo, de forma justa, a transmissão efetiva das sessões da Câmara via internet. À Cida Muniz, os colegas do Azesquerda desejam boa sorte.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Matérias e reportagens são a mesma coisa?

Por Felipe Shikama


Algumas noções da prática do jornalismo, por muito tempo restrita a este campo profissional, começam cada vez mais a ser difundidas e compreendidas pela sociedade. E isso, sem dúvida, é um avanço.


Tanto para o jornalismo que, sendo de fato mais inteligível a todos, consegue ocupar novos espaços, quanto para parcela da sociedade que, ao compreender amplamente conceitos e práticas da atividade jornalística, se qualifica como exigente consumidor de notícia.


Até pouco tempo, ao se referir a uma reportagem, era comum empregar o termo “artigo”. Formas textuais do jornalismo conceitualmente distintas. A primeira, objetiva, a outra, opinativa. Diferente deste pequeno equivoco, aplicado como sinônimos no Brasil, (talvez, devido à tradução literal e automática do termo inglês), um outro aspecto, mais sofisticado, precisa ser melhor compreendido pela sociedade.


E essa compreensão passa, inicialmente, por uma discussão que envolva profissionais já inseridos no campo jornalístico, professores e alunos de graduação da área: matéria e reportagem não são a mesma coisa.


Em redações reduzidas de jornais do interior de São Paulo, por exemplo, há repórteres que se gabam em terminar seu expediente afirmando ter elaborado, naquele mesmo dia, quatro ou cinco matérias, e com modéstia completam: - sem falar naquelas que saem sem a assinatura.
Creio que está prática se repita em outras regiões do país.


Diante de tanta desenvoltura e eficiência, seria natural se perguntar por que motivos um profissional como este não desperta interesse de chefes de reportagens de um dos jornalões ou uma das revistas semanais de grande prestígio no Brasil?


Talvez por ineficácia de seus métodos modernos de apuração com uso de telefone, MSN, Google e Wikipedia, estes “redatores de matéria” ou “cozinheiros de press-releases” ainda não tiveram tempo de descobrir a real dimensão da história da reportagem em nosso país e aprender a lição.

Eliane Brum, Ricardo Kotscho e Zuenir Ventura, todos em efervescente atividade, compõem uma vasta lista de premiados repórteres brasileiros. Entre outros mestres, estes jornalistas não são renomados por se portarem e tampouco se parecerem com celebridades da tevê, e sim pelo brilhante resultado da árdua dedicação de sua atividade jornalística: a reportagem. A arte de contar uma história real.

Para qualquer leitor, o mínimo esforço de “requentar” releases ou, quando muito, disparar um ou outro telefonema a fim de uma declaração oficial, “só pra reforçar”, é desprezível.

Ainda que aplicada nos jornais apenas diante de um acontecimento de absoluta relevância social e extremamente factual, esta prática preguiçosa do repórter (muitas vezes estimulada mais por parte dos proprietários do veículo) faz cada vez mais com que a matéria - e consequentemente o jornal - torne-se descartada antes mesmo de se tornar pública.

No Brasil, a internet ainda não é um meio de comunicação de massa, segundo levantamento do IBGE, atinge hoje o patamar de 41 milhões de brasileiros. Mas graças a agilidade do meio e a implantação de políticas públicas de incentivo para aquisição de computadores, este duvidoso método de fazer “matérias” parece estar com os dias contados. A questão que fica é: e quem saberá fazer reportagens?

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O futuro dos jornais

Por João José de Oliveira Negrão

Levantamento do IVC (Instituto Verificador de Circulação) mostrou que a circulação de jornais cresceu 5% no Brasil em 2008, puxada pelos jornais populares e regionais. Em 2007, este aumento tinha chegado a 11,8% e em 2006 a 6,5%. A circulação média diária no ano passado foi de 4.351.400 jornais. É pouco, considerando-se o período de crescimento da economia e do emprego no período. O espaço para crescer é enorme: no Brasil, consome-se 53 exemplares de jornais a cada grupo de mil habitantes. No Reino Unido, a proporção chega a 335 exemplares e nos EUA a 241. No México, onde a comparação com o Brasil é mais realista, a média é de 148.
Discute-se muito se há futuro para os jornais impressos, que estariam acossados pelas novas mídias, em especial a internet. Mas os números mostram que ainda há espaço para esta modalidade.

A questão, neste momento, que precisa ser encarada, é a qualidade. Nosso jornalismo está muito ruim. As empresas investiram muito mais em marketing, prêmios e coleções, ou em outras atividades do que nas redações que, ao contrário, sofreram processos de enxugamento. Há pouca ou nenhuma reportagem mais aprofundada, usa-se em excesso o telefone e os materiais produzidos pelas assessorias de imprensa.

Aqui em Sorocaba, por exemplo, a reportagem política foi substituída pelas colunas de notas, muito mais voltadas ao pequeno varejo do disse-me-disse. O mesmo ocorre nas editorias de Economia, Cultura, Esporte. Quase não há espaço para bons repórteres, mas abundam as colunas sociais – a cada final de semana, chegam à casa da dezena, juntando-se os três diários e o bissemanal – que pouco contribuem para a finalidade precípua do jornalismo: a informação bem tratada.

Talvez, nesse momento de crise, seja a hora dos jornais investirem no essencial, o jornalismo de qualidade, para ampliar seus leitores e sua circulação.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Imprensa e subcelebridades

João José de Oliveira Negrão

Marcelo Silva, 38 anos, ex-policial, morreu supostamente por overdose de cocaína, num quarto de hotel. Para qualquer editor, quando muito isso viraria uma nota, num jornal de circulação nacional, ou uma matéria interna, no caderno policial, de no máximo umas 40 linhas, talvez com direito a chamada de capa na dobra inferior, num jornal local (desde que da cidade onde o fato tivesse acontecido).

Mas a morte de Marcelo Silva ganhou, na semana passada, a capa de duas das principais revistas semanais de “informação”, Veja e Época, além de destaque em outros veículos “sérios”. As revistas e os programas de celebridades, então, não falaram de outra coisa. Até o pretensiosamente intelectualizado Saia Justa, do GNT, dedicou-se ao tema. Qual a diferença entre um Marcelo Silva qualquer, genérico, e este específico? O ex-policial foi casado por alguns meses com uma atriz global, 29 anos mais velha que ele.

O casamento de Suzana Vieira com Silva foi tornado público. Os percalços da relação foram tornados públicos. O fim do casamento foi tornado público. Isso tudo por uma mídia que virou uma indústria de celebridades, subcelebridades e celebridades adjuntas, na qual a distinção entre o jornalismo “sério” e o de “fofocas de vida de artista” é cada vez mais borrada.

Muitos veículos e editores se escudam numa pretensa sabedoria de que “isso é notícia” e que o público tem o “direito” de saber para defender tal decisão editorial. Com isso, liqüefazem o papel histórico do jornalismo na construção da sociedade democrática e, pior do ponto de vista da sobrevivência, abrem mão do futuro, pois os cidadãos estão cada vez mais cansados dessa superficialidade.

A militância midiática neoconservadora

Por Luis Nassif

Publicado pelo Observatório da Imprensa. Reproduzido do blog do autor, 15/12/2008; título original "O Judas da Semana Santa"

Esta semana ocorre em Salvador a XXXVI Reunião do Conselho Mercado Comum e Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul. Há um conjunto de temas técnicos relevantes a serem tratados. Segundo a página do Itamarati:
"Entre as iniciativas a serem tratadas na área econômico-comercial, encontram-se a criação do Fundo Mercosul de Garantias para Micro, Pequenas e Médias Empresas e do Fundo de Agricultura Familiar do Mercosul, a eliminação da dupla cobrança da Tarifa Externa Comum e a distribuição da renda aduaneira e o Código Aduaneiro do Mercosul. Está prevista, ainda, a assinatura de acordo comercial preferencial entre o Mercosul e a União Aduaneira da África Austral".

Aí ligo na CBN, na vinda para o trabalho e ouço Lúcia Hipólito falando da encrenca que será essa reunião, porque alguns países latino-americanos defendem a auditoria na dívida externa. E, como o PT defendia essa tese antes de Lula ser eleito, ela não sabe qual será o comportamento do presidente Lula nessa reunião.

Provavelmente confundiu essa reunião com a Cúpula Social dos Povos do Mercosul, uma espécie de reunião paralela dos movimentos sociais, sem nenhuma ingerência na reunião oficial. Mas sempre suas confusões vão em uma direção única.

Há uma crítica conservadora consistente sendo feita a Lula, há intelectuais conservadores respeitados com inúmeros reparos à ação do governo. Mas esse neo-conservadorismo midiático optou pelo caminho mais fácil, do show primário, populista, demagógico, dos quais o luminar maior tem sido Demétrio Magnoli, com análises que têm o brilho de um abajur neon.

Pescadores de irrelevâncias

O país, o mundo em um processo inédito de transformações relevantes, uma avenida de temas contemporâneos a serem explorados. Mas os "cientistas" do show se limitam cotidianamente a criar ficções – o petismo pré-2002, o marxismo, o Foro São Paulo – e, a partir delas, encaixar seu discurso. Lembram muito a piada de um médico que, para qualquer doença, tascava dosagens maciças de um remédio que gerava problemas renais. Alertado para isso, explicou: "É que eu só entendo de doenças renais mesmo. Assim, trago a doença para o meu campo".

Os personagens criticados existem, não tem relevância alguma no quadro político atual, menos ainda no governo e servem para apenas uma coisa: fornecer o álibi para o discurso raso desses comentaristas. E o mise-en-scène é completado com as credenciais acadêmicas dos analistas, que são apresentados como intelectuais, cientistas.

Eles até podem ser, mas em outro canto. Na mídia, fazem parte do grande show de pescar irrelevâncias para sua militância midiática – que não é levada a sério por nenhum intelectual que se preze, seja de esquerda ou conservador.