segunda-feira, 16 de junho de 2008

Jornais, jornalistas e números

Por João José de Oliveira Negrão

Sempre me bati contra a frase feita de que o jornalista – ou qualquer outro profissional ou estudioso das ciências humanas – não se dá bem com números, que esta preocupação é um “desvio burocrático”. Não é. A precisão da informação e o cuidado com as cifras deve ser uma obsessão do jornalista. Se devemos checar e rechecar nomes, datas e períodos, mais ainda temos de nos preocupar os números.

Essa preocupação faltou na matéria do Cruzeiro do Sul, de 10/06/08, sobre os investimentos do governo federal em Sorocaba. O jornal simplesmente comprou sem ver – quase um ctrlc / ctrlv -- matéria publicada pela Folha de S. Paulo no dia anterior, eivada de erros. Ambos afirmam, por exemplo, que a cidade contou com apenas R$ 1.364.343,00 de verbas federais nos cinco anos do governo Lula.

Ora, bastava uma simples consulta aos arquivos do Cruzeiro do Sul para se saber que o “estudo” da Folha, reproduzido pelo centenário jornal local, estava errado. É inaceitável. É verdade que o jornalismo trabalha premido pelo tempo, que os prazos e processos industriais têm de ser cumpridos. Mas o bom senso e, muitas vezes, até mesmo o óbvio não podem ser deixados de lado.

Será que ninguém – repórter, editor, editor-chefe – percebeu que aquela quantia pretensamente investida em Sorocaba estava errada? Será que ninguém lembrou que só o campus da UFSCar na cidade custou mais do que aquilo? E o que já foi investido na despoluição do rio Sorocaba, para tratamento de esgotos? E para regularização fundiária? Tudo isso foi matéria nos jornais, rádios e tevês da cidade.

O concorrente do Cruzeiro do Sul, o Bom Dia, de 14/06/08, também errou. Ele pegou oito cidades, quatro administradas pelo PT (Araraquara, Botucatu, Porto Feliz e Santo André) e quatro pelo PSDB (Jundiaí, São José dos Campos, Sorocaba e Ribeirão Preto). Na manchete, afirma que Sorocaba recebe 20% a menos que a média das cidades “petistas”. Está errado. Pelos números apresentados pelo jornal, as quatro cidades “petistas” receberam R$ 775.428.553,09 para uma população de 1.030.560 pessoas. Isso dá um total per capita de R$ 752,43. As cidades “tucanas” receberam R$ 1.684.508.362,51 para 2.044.505 habitantes. Per capita, cada morador recebeu R$ 823,92. A manchete devia ser outra. Talvez “Lula investe mais em cidades tucanas que petistas”, que dá o mesmo número de caracteres do título original.

Como no jornalismo o erro profissional também é um erro ético, esses vacilos permitem mil elucubrações, até mesmo a suposição de que a intenção não era mesmo informar, mas confundir.

3 comentários:

Helo disse...

Oi pai,
você viu a demissão coletiva na Caros Amigos? Está no Comunique-se, e lá também tem a crítica do editor do JT, acho que o conjunto da obra sobre demissões solidária merece um "post"...Ah, e eu não sei se é vc que cuida da parte mais técnica do Blog, mas eu acho que o Blogger possibilita o RSS, que é uma nova modinha internética, na qual o ícone do blog fica na barra de favoritos e é atualizado automaticamente...
acho que seria legal se vcs colocassem...
Beijos
Heloísa Negrão

Helo disse...

opa,
falei bobagem sobre o RSS, dá para colocar sim, no Mozila Firefox basta ir no "Favoritos" e clicar em RSS.
beijos
Helô

Anderson Oliveira disse...

Esta idéia de ignorância dos jornalistas para com os números torna-se de grande valia para essas "picuinhas" entre "direita" e "esquerda". Os jornalistas invertem os números, criam novas somas, novas subtrações, adicionam divisões e não se sabe ao certo qual o resultado.
Há alguns meses surgiram sérias denúncias contra ministros do Governo Lula no uso do cartão corporativo, mais tarde, para que não se apure mais nada o fato, voltaram no tempo do Governo FHC: quem havia gasto mais com os cartões corporativos? Novamente eram os números, não se soube.
Não se soube quem gastou mais, não se soube como as contas do Governo FHC foram parar na Imprensa.
Algo interessante: a matemática, agora arma da ideologia.