segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Enfrentar a intolerância

Por João José de Oliveira Negrão

A cena é assustadora. Dois pequenos grupos de jovens caminham em sentido contrário na Avenida Paulista, centro financeiro da maior cidade da América do Sul e uma das maiores do mundo. De repente, do nada, vê-se um dos garotos agredir a outro por duas vezes com uma lâmpada de luz fria. Imediatamente me lembro das recomendações de minha mãe, que alertava para o cuidado com tais lâmpadas, já que, em caso de acidentes com cortes, “a cicatriz ficava muito feia, pois não fechava direito”. Será que ainda é assim?

Ainda naquela noite, o grupo composto por jovens de classe média, sem problemas financeiros e estudantes de escolas privadas – embora já colecionassem expulsões em algumas delas – teria agredido outras três pessoas. O motivo das agressões foi a suposta homossexualidade das vítimas. Na mesma semana, um sargento do Exército brasileiro, no Rio de Janeiro, baleou na barriga um outro jovem, pelo mesmo motivo.

São sinais preocupantes de intolerância, que precisa ser combatida sem tréguas. Em artigos das semanas passada e retrasada, tratei aqui do preconceito contra nordestinos, negros e indígenas que aflorou com o resultado das eleições presidenciais. Embora a onda tenha se originado nas redes sociais, não ficou restrita a elas: artigos publicados na Folha de S. Paulo, pelo jornalista Leandro Narlochi e pela professora de Direito da USP, Janaína Paschoal, botaram mais lenha na fogueira e deram ao preconceito explícito um certo “verniz intelectual”.

Instituições sociais importantes e comprometidas com a democracia, como os sindicatos, universidades, OAB, entre outras, precisam ajudar a enfrentar o ovo da serpente. Sugiro que, para o ano que vem, organizemos debates, palestras e seminários com o objetivo específico de discutir e combater todas as formas de preconceitos. Desde já me coloco à disposição. Se ficarmos quietos, fazendo de conta que é um problema menor, localizado, a intolerância se alastrará. Depois, talvez seja tarde.

João José de Oliveira Negrão é jornalista,
doutor em Ciências Sociais e professor no Ceunsp

(Publicado no Bom Dia Sorocaba de 22-11-2010)

Um comentário:

Valdinei Queiroz disse...

Eu concordo com sua reflexão, João. Casos como racismo, qualquer tipo de preconceito e homofobia devem ser barrados.

Eu sou favor, definitivamente, de um Ciclo de Palestras, Seminário, seja o que for, mas é necessário um debate sólido e mostre que esse tipo de cena não é mais isolada, acontece frequentemente, infelizmente.