quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Vítimas, não culpados

Por João José de Oliveira Negrão


O preconceito contra nordestinos, negros e indígenas, “culpabilizados” pela vitória de Dilma Rousseff na eleição presidencial – e que levou a OAB-PE a representar contra a estudante de Direito Mayara Petruso, que teria dado início à onda xenófoba --, continua repercutindo.

 

Na semana que passou, dois novos artigos publicados pela Folha de S. Paulo puseram lenha na fogueira. O primeiro, do jornalista Leandro Narloch – "sim, eu tenho preconceito" – no qual o autor desfila uma série de, digamos, argumentos, em síntese, culpa as vítimas pela pobreza e pela falta de estudos. Ao lê-lo, imediatamente me vi remetido à releitura de Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. O livro é de Hannah Arendt, de 1963. Tem edição recente e mostra a necessidade de lutar por valores humanistas em tempos sombrios. E que fique claro: NÃO é isto que faz Narloch, ao se vangloriar da obtusidade.


O segundo saiu da lavra da professora de Direito da USP, Janaína Paschoal. Em defesa da estudante Mayara, Janaína utiliza-se de um surrado recurso retórico: começa lembrando que é “neta de pernambucanos”. Na sequência, conforme escreveu a também professora de Sociologia da USP, Heloísa Fernandes, parte para a lógica da inversão: “por ela, não apenas não somos racistas como tudo que acontece é culpa da vítima. Se não fossem os negros, nordestinos, pobres, prostitutas, homossexuais, se Lula não fosse presidente, a estudante não teria cometido o despautério de pedir o assassinato de ninguém e tampouco teria sido demonizada”.

Narloch e Janaína, intelectuais, com formação de primeira linha, demonstram que a educação formal não é garantia absoluta contra o preconceito. O ovo da serpente, tirado do ninho pela campanha de José Serra ao abrir espaços para os fundamentalismos, começa a estalar. Só a retomada da hegemonia de valores democráticos, republicanos e progressistas – o que não significa concordância ou oposição ao governo eleito – poderá livrar o país de um retrocesso que insiste em retornar.

João José de Oliveira Negrão e jornalista,
doutor em Ciências Sociais e professor no Ceunsp

(Publicado no Bom Dia Sorocaba de 15/11/2010)

2 comentários:

Anderson Oliveira disse...

"culpa as vítimas pela pobreza e pela falta de estudos."


Em que parte do artigo Narloch faz isso?

Ele fala em marketing da pobreza em época de campanha. E de certo presidente ter orgulho de não ter estudado.

João José de Oliveira Negrão disse...

É a síntese do, digamos, pensamento dele. Ñ é uma citação literal (as aspas são suas). Agora, até isso vc vai defender, o preconceito mais deslavado? E chama isso de "liberalismo", uma das correntes filhas da Ilustração?