segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Educação política

Por João José de Oliveira Negrão

Tenho defendido, neste espaço, a tese do incremento do nível de racionalidade no voto conforme nossa população vai ampliando sua experiência democrática. A educação política não se resume à educação formal, embora não a despreze. Com isso, quero dizer que mais anos de estudo não implicam automaticamente em maior discernimento na hora da escolha do candidato, ao contrário do que deixaram transparecer certos artigos conservadores ao analisar dados de levantamento do TSE a respeito da escolaridade dos eleitores.

A educação política vem pela prática da participação cidadã, mas é tarefa, também – além das escolas de todos os níveis – de outras instituições sociais que se comprometam com a democracia. Entre elas, papel de destaque merece a imprensa, tanto a impressa quanto a eletrônica.

Ela, no entanto, tem deixado a desejar. Nosso jornalismo político, com poucas exceções, tem se focado mais na baixa fofoca política, no disse-me-disse, nas provocações baratas, e menos nas questões de fundo, na informação e na análise de peso. E até boas ideias, como a deste Bom Dia, de levantar temas para serem respondidas pelos candidatos da região, não se resolvem bem: o espaço para as respostas (115 caracteres) é exageradamente curto.

Além disso, as perguntas são excessivamente genéricas e não distinguem com clareza o que pertence ao universo decisório de um presidente da República, de um governador, de um senador, de um deputado federal e de um estadual. Essa generalidade, ao contrário das aparências, não contribui para o aprofundamento da educação política da população.

João José de Oliveira Negrão é jornalista,
doutor em Sociologia Política e professor no Ceunsp

(Publicado no Bom Dia Sorocaba de 02/08/2010)

3 comentários:

Anderson Oliveira disse...

Iniciei esta semana, embora acredite que não irei terminar, um artigo em que defendo a inserção da disciplina de política no ensino básico.
Acredito que uma disciplina de teoria e história da política, enfocando as "transformações" sociais até a modernidade e a importância do engajamento político, é digna de figurar entre as disciplinas de história, sociologia e filosofia.
Não falo de ensinar a votar - o que poderia se tornar uma ferramenta para alguns professores petistas, rs... - mas de levar os alunos a refletirem sobre a formação da sociedade.

João José de Oliveira Negrão disse...

Ñ creio que seja o caso de uma disciplina, mas, sem dúvida, como tema transversal, poderia recortar História, Filosofia e Sociologia. Mas o problema é fugir do senso comum: p/ certos professores, só há política na Grécia antiga: eles ñ vão além das discussões sobre democracia direta e democracia representativa. Só ñ pode deixar as orientações sob responsabilidade do Gianotti ou do Guilhon Albuquerque, por excesso de tucanismo hehehe

leandro sarubo disse...

Desculpem-me se eu estiver tratando de maneira superficial ou equivocada esta questão, mas vocês não acreditam que uma disciplina semelhante à Geopolítica seria até mais útil por ajudar a reforçar nos jovens o interesse pelo acompanhamento do noticiário?

Na UFSCar existiam projetos do gênero no cursinho que os próprios alunos ministravam para os estudantes da rede pública. Lá os resultados eram super positivos - a média de aprovações no Vestibular batia o de cursinhos do sistema "tira dúvidas pelo Correio".

Abraços, Mestre!